Marc Deschamps, o adeus a um discreto visionário
No dia 4 de Outubro, morreu Marc Deschamps, aos 82 anos, vítima das sequelas duma queda que sofreu há três anos.
A sua contribuição para a definição do formato do automóvel na era moderna, é francamente subvalorizada, como se pode perceber numa rápida apreciação da obra que deixou.
A carreira de Deschamps esteve fortemente associada à Bertone, tanto no início da carreira, como numa fase posterior e muitos dos seus principais trabalhos são erradamente atribuídos a Marcello Gandini.
O primeiro projecto cujo desenho integral da carroçaria lhe deve ser atribuído, é o Citroën Camargue, um concept assente na mecânica do GS, e cujo design em cunha era elegante, aerodinâmico e futurista.
Depois desta primeira passagem pelos estúdios Bertone, Deschamps passou pela Chapron, para trabalhar noutro projecto baseado no GS: uma carroçaria Coupé que tinha como intenção ser aplicada no Birotor, o GS com motor Wankel.
Pouco tempo depois ingressaria na Renault, no período em que Robert Opron geria o departamento de design. O seu mais importante trabalho desta fase, é também erradamente atribuído a Marcello Gandini, já que o italiano foi responsável pelo desenho do irreverente habitáculo, mas não das formas da carroçaria, que foram finalizadas para produção por Yves Legal.
Depois do seu período na Renault, Deschamps regressaria à Bertone, onde desenhou dois concept muito influentes: o Chevrolet Ramarro, um coupé de portas deslizantes e desenho em cunha e o muito celebrado Bertone Nivola. Este último tinha um habitáculo em cúpula, com uma grande superfície vidrada, que acabou por criar uma tendência entre os automóveis superdesportivos.
Em 1990, Deschamps ocupou-se dum projecto para a criação do design para o ressurgimento da Bugatti, com o EB110. No final, o modelo não levaria a sua assinatura, mas levava, claramente, muitas das ideias que lançou na proposta da Bertone, que depois derivou para o concept Lotus Emotion. É fácil de verificar as ideias que acabaram por ser adoptadas pela Bugatti e é fácil de verificar que esta proposta era bem mais interessante do que o desenho original de Gandini, que acabaria por ser aprimorado por Gianpaolo Benedini.
Mas para lá dos projectos mais mediáticos, este período ao serviço da Bertone acabaria por ser prolífico, com o seu trabalho materializado em automóveis de produção em série, com destaque para o Citroën XM, o Skoda Favorit e as versões descapotáveis do Fiat Ritmo, Opel Kadett e Astra, ou ainda o Volvo 780 Bertone.
Na fase final do trabalho para a Bertone, Deschamps abraçou um projecto pouco celebrado, mas cuja influência no produto final é evidente: as duas propostas da Bertone para o 986 (Boxster) e 996 (911), não estão muito longe do desenho final que é da autoria de Pinki Lai, o que sugere que terão sido elas o ponto de partida para a total transformação do mais importante modelo da Porsche.
O funeral de Marc Deschamps acontece amanhã, em Turim.
















