50ª Retromobile: os grandes "dealers"
Comerciantes, o prato forte.
As exposições temáticas tendem a ser o maior atractivo da maioria dos salões, mas na Retromobile, por norma, os “dealers” trazem uma oferta de tal modo estratosférica, que acabam por superar tudo o resto. No 50º aniversário do salão, com toda a atenção mediática, todos se esmeraram.
No mundo dos grandes coleccionadores, os modelos de competição são, cada vez mais, alvo de procura. A JMB Classic levou a Paris um conjunto incrível de protótipos de resistência: um Peugeot 908 HDI de 2008, dois Pescarolo, o 01 e o C60 e ainda um BMW V12 LM de 98. E para complementar a oferta, a mesma empresa trouxe um dos dez Bugatti Cientodieci...
Como sempre, o espaço da Girardo & Co., além de especialmente bem decorado, estava repleto dos Ferrari mais especiais que se possa imaginar. Entre os “previsíveis”, estava a linhagem completa: 288 GTO, F40, F50, Enzo e LaFerrari.
A estrela maior do stand foi o 365P #0816, o chassis vencedor das edições de 1963 e 1964 das 24H de Le Mans. Recuando no tempo, fez história o 750 Monza exposto, que foi pilotado na sua época por Carrol Shelby e Phil Hill, para alcançar o segundo lugar nas 12H de Sebring de 1955.
A mesma empresa expôs também dois 275 GTB, sendo que um deles foi originalmente pertença de Jean-Paul Belmondo, com vários detalhes de personalização feitos a pedido do actor, para além de uma cor exclusiva pedida expressamente por Ursula Andress, então sua companheira.
Outro nome incontornável entre os grandes comerciantes do ramo é o de Simon Kidston, que apresentou um stand com inspiração nos filmes da saga 007 de que é assumido fã.
Simon é também fã dos McLaren F1 e, como tal, apresentou dois exemplares: o chassis #007 - que já foi seu automóvel pessoal – e também o GTR Longtail com as cores da Gulf, pilotado por Derek Bell, Gilbert Scott e Masanori Sekiya nas 24H de Le Mans. Além dum Daytona Spyder dum Aston Martin V8 Vantage, entre outros, Kidston expôs o que pode ser considerado um dos mais belos automóveis do salão: um Ferrari 166MM Le Mans Berlinetta. Um exemplar perfeito, num azul único e com um longo historial de competição que inclui três participações nas Mille Miglia originais.
Outros expositores impressionavam pelo insólito. A Galerie des Damiers levou ao salão dois exemplares únicos. Um deles era o desconhecido Michelotti Boudot Conrero Coupé. Este exótico modelo nasceu da vontade dum entusiasta em transformar o seu Renault Dauphine em algo exclusivo.
Michelotti vestiu-o com uma carroçaria não muito longe do estilo o Alpine A108, Virgilio Conrero preparou um motor de origem Alfa Romeo, elevando-o aos 95cv e Roger Boudot tratou da adaptação do chassis.
O outro automóvel do stand era o já famoso OSI Silver Fox, o verdadeiro “catamaran” sobre rodas. Este estranho modelo era uma radical experiência aerodinâmica e saiu da imaginação de Piero Taruffi e monta um motor 1000cc Alpine.
As empresas Niki Hasler, P&A Wood e Lukas Huni partilharam o espaço na Retromobile, criando uma das áreas mais especiais do salão. No espaço de Niki Hasler, destaque para dois exemplares excepcionais: um 365 GT4 BB em bronze (Nocciola Metalizatto), com um restauro notável, um 365 GTB/4 “Daytona” em violeta (Viola Dino Metallizato). Além destes, estavam presentes um 250 GTE 2+2, um 250 GT Boano e um 250 GT Lusso, todos em estado de concurso.
Para os coleccionadores e entusiastas para quem o historial de competição é o maior argumento, o lote de máquinas da Fiskens era arrebatador. Logo à entrada o sexto Shelby Cobra 260 produzido e usado pela escola de Shelby no treino dos actores James Garner (Grand Prix) e Steve McQueen (Le Mans) e usado no filme “The Killers”. Mais atrás, um 289 com que Jo Schlesser venceu algumas provas na época. Ao lado, o chassis 001/01 do Brawn de F1, levado por Barrichelo a vários pódios e oferecido a Button pelo título obtido.
Em destaque, o Porsche 956B com que Schuppan, Jarrier e Alan Jones lideraram boa parte das 24H de Le Mans de 1984, que terminaram em sexto. Encantador era também o vitorioso Jaguar D-type de Peter Blond, mas não tanto como o originalíssimo Ferrari Mondial 500 de 1955 ex-André Villas-Boas, que está novamente no mercado, anos depois de ter saído de Portugal.
O tema da competição era apenas parte do encanto do stand de Joe Macari onde estava presente, por exemplo, o McLaren F1 chassis 16R do Team Bigazzi, pilotado por Jacques Laffite, Marc Duez e Steve Soper nas 24h de Le Mans de 1996, terminando em 11º. Ao lado estava o Maserati MC12 GTI com que Andrea Bertolini e Karl Wendlinger conseguiram alguns resultados de relevo, perto do Mercedes-Benz C AMG que Hakkinen pilotou no DTM em 2005.
Destaque ainda para um Audi R18 TDI usado por Allan McNish e Tom Kristensen na Intercontinental Le Mans Cuo de 2011. Juntamente com os modelos de competição, Macari exibiu ainda modelos como os Ferrari 275 GTB/4 de alumínio e 250 GT SWB California Spider, além de um Singer.
No centro de tudo, o modelo encomendado especialmente por Joe Macari a Gordon Murray: GMSV Le Mans GTR, baseado no GMA T50, mas com um desenho exclusivo.
Numa dinâmica radicalmente diferente, o especialista suíço Axel Schuette encantou o público com um conjunto de três automóveis de carroçarias “art deco”: Um Talbot Lago T26 carroçado pela Antem, outro carroçado pela Saoutchik e um terceiro carroçado pela Figoni et Falaschi. Um conjunto absolutamente excepcional.
A holandesa Gallery Aaldering levou para Paris uma montra composta sobretudo por modelos mais modernos da Ferrari (F40, Enzo La Ferrari Aperta) e de de outras marcas como a Bugatti, e, como aconteceu em casos semelhantes, vários tinham o letreiro “vendido” no primeiro dia do salão.
A marca de Portugal
Numa estreia absoluta na Retromobile e sendo único a representar o saber português na arte do restauro, esteve a KTX. A empresa nortenha foi testar a reacção da melhor clientela internacional ao seu trabalho de restauro, sobretudo nas vertentes cuja qualidade pode ser constatada no local.
O trabalho de chapa, montagem e de estofos e interiores, estava bem representado através de dois projectos da empresa: um Land Rover Defender personalizado, tanto no exterior como no interior, e um “restomod” dum Porsche 911 Targa, que evidenciava um nível de acabamentos muito superior ao modelo original e feito segundo as especificações do cliente.
Segundo os responsáveis da empresa, o interesse demonstrado pelos visitantes, alguns deles comerciantes do sector, superou as expectativas, mas há ainda um longo trabalho a fazer para afirmar o país enquanto produtor de restauros de elevada qualidade, pois a expectativa do mercado é a de que os países periféricos trabalham com base no argumento do preço, “O que no nosso caso não é verdade. Se compararmos outro trabalho de igual nível num país do norte da Europa, vamos ser sempre competitivos, mas o nosso objectivo é fazer perfeito e não barato.”







































