Debates eternos: Peugeot 205 GTI 1.6 ou 1.9?
Uma saga a celebrar
Em Julho de 1978 nasce o projecto de código interno M24, que daria origem ao 205. Desde logo ficou definido que o carro teria de ser aerodinâmico e leve, com suspensão independente e motores potentes. Portanto, uma base perfeita para um desportivo.
Até à data do desenvolvimento do GTI, havia apenas três desportivos compactos como referência: o Renault 5 Alpine, o Alfasud Ti e o Golf GTI (e, com boa vontade, o Simca TI). Este último arrebatou a imprensa com comportamento ágil e ao provar que, no mundo real, um desportivo de tracção poderia ser bem mais eficaz e divertido do que um carro de propulsão mediano.
O Golf GTI 1.6 tinha 108cv e era, naturalmente, o alvo do 205 GTI, que surgiu em 1984 com 105cv às 6600rpm (motor XU5J, totalmente concebido em alumínio). A Volkswagen, no entretanto, reagiu por antecipação, lançando antes o 1.8 de 112cv, que conseguia ser quase um segundo mais rápido nos 0 a 100km/h do que o 205.
A esta subida da fasquia, a Peugeot respondeu apenas em Janeiro de 1986 com o motor XU5JA de 115cv às 6250rpm, primeiro como opção, depois como equipamento de série.
Esteticamente, é difícil distinguir as versões de 105cv e 115cv. Exteriormente são exactamente iguais. No interior, a única característica que os permite distinguir é o grafismo dos instrumentos, que tem números maiores e mais redondos na versão de 105cv.
Em 1987, face à crescente subida de potência e capacidade dos modelos concorrentes, surge o GTI 1.9 de 130cv. A cilindrada era obtida por um aumento do curso, mas os reforços ao nível da cambota permitiram que o regime máximo se mantivesse inalterado. No 1.9, os travões de trás são de disco, da Bendix.
Os travões da frente são Girling em vez dos Bendix do 1.6. Exteriormente, a principal diferença são as jantes de 15 polegadas com pneu 185/55, montados em eixos específicos.
Ainda em 1987, em Julho, ambos os modelos recebem várias modificações, especialmente no habitáculo, que recebe um novo tablier, com um desenho mais orgânico e funcional. O volante passa a ser de três braços. Há também novos padrões nos tecidos dos bancos. No exterior, mudou subtilmente o desenho dos espelhos retrovisores e o spoiler decorativo do portão traseiro passou a ser mais curto nas extremidades.
Em 1991, surgem novos retoques estéticos, nomeadamente farolins redesenhados e piscas brancos na dianteira, alterações que, de resto, estavam presentes na restante gama 205.
Em 1992, por imposição das normais anti-poluição que viriam a entrar em vigor em 1993, surge uma nova versão do 1.9, com catalisador e 122cv (motor de referência XU9JAZ) a injecção passa ser Motronic em substituição da L-Jetronic.
Exteriormente, as jantes passam a ser pintadas em cinzento mais escuro. Surgem também novos revestimentos interiores.
Acima de 100cv, é um caso sério!
É “fofo”, pensarmos que houve um tempo em que achávamos que um carro com mais de 100cv já não era para qualquer um...! Um GTI 1.6 de 105cv era uma máquina, um de 115cv era uma loucura e um 1.9 de 130cv era algo que ficava só para o domínio dos sonhos!
Claro que a potência não era a “arma” do 205 GTI. Nesse capítulo era facilmente batido até por um desajeitado Uno Turbo. O trunfo estava na forma como o 205 mudava de direcção e como podia adaptar-se às mudanças de raio das curvas com o mais ligeiro movimento do pé direito, ou com um toque no travão se o condutor tivesse mesmo muito coração e reflexos rápidos. E também nesse capítulo, o 1.6 e o 1.9 eram diferentes, mas deixemos isso mais para o fim...
Preço
Antes de discutirmos preferências, colocamos “os pontos no is”: no mundo real, a preferência está à partida condicionada. É fácil dizer que se prefere o 1.6 se isso nos pode poupar quase dez mil euros no valor de compra.
Em Portugal, em Junho de 1987, um 1.6 custava 2450 contos e um 1.9, por culpa da carga fiscal, uns imensos 3490 contos. Hoje, proporcionalmente, a diferença não é muito diferente.
Em todo o caso, na análise comparativa, vamos esquecer por um momento os valores, pois, se esquecermos expressões irritantes como “potencial de valorização”, é possível encontrar quem prefira mesmo um 1.6 a um 1.9.
AGORA SIM, O DUELO
Por uma questão de justiça e equilíbrio, vamos considerar o 1.6 de 115cv como o modelo a comparar.
Estética
A decoração específica dos GTI, com frisos vermelhos, pára-choques mais longos, um pequeno spoiler, eram o suficiente para fazer suspirar o público jovem. No caso do 1.6, as jantes de 14 polegadas inspiradas no Turbo 16, completavam o look especial.
A sedução continuava no interior, com bancos e volante desportivos, um tablier próprio com uma instrumentação muito completa. A qualidade dos materiais usados e de construção eram fracas, mesmo para os padrões da época, apesar de melhores na segunda geração.
O 1.9 trouxe como novidade as jantes de 15 polegadas e pouco mais, o que tornava fácil criar confusão apenas com a troca das jantes.
Já o interior do 1.9 era marcado pelos simples mas singulares assentos bicolores, metade em cinzento claro e a outra metade em cinzento escuro, com apenas uma linha vermelha vertical a dividir, e com as laterais em pele. Era uma inspiração vinda do 205 Turbo 16, como que a sinalizar um modelo mais “sério” e exclusivo.
Técnica e equipamento
As diferenças entre ambos vão muito para além do motor, mas comecemos por aí: o 1.9 tem um curso superior ao do 1.6 o que justifica a afamada ideia de que o motor mais pequeno é mais “nervoso” e rotativo. Uma coisa é certa: ambos tiram a potência máxima quase à mesma rotação (250rpm mais cedo no 1.9) e ambos têm o redline às 7000rpm.
Naturalmente, o 1.9 tem uma relação final mais longa, o que anula alguma da vantagem que teria na aceleração. Ainda assim, chega aos 100km/h com mais de um segundo de vantagem face ao 1.6 e atinge mais 10km/h.
Mas a Peugeot quis melhorar a dinâmica para lidar com a performance extra, por isso, além de aumentar as jantes numa polegada, com pneus mais largos, aumentou a largura de vias e equipou o 1.9 com discos no eixo traseiro.
O 1.9 usa barras de torção mais fortes, amortecedores e molas mais firmes, assim como barras estabilizadoras mais grossas.
Utilização
Já ninguém usa um 205 GTI para deslocações diárias e ,se tiver juízo, nem para levar a família a passear. Um GTI é para acelerar... Dito isto, quando se tenta usar um destes automóveis em ritmo calmo, há uma considerável diferença entre usar o 1.6 ou o 1.9.
Ao nível do conforto, as rodas e pneus mais pequenos do 1.6, assim como a suspensão mais branda, tornam tudo mais suave.
Contudo, a relativa ineficiência da L-Jetronic2, combinada com as relações curtas e o menor binário do 1.6, tornam o motor menos suave a baixas rotações, por pequenas questões que vão desde a sensibilidade do medidor de massa de ar ao funcionamento do avanço por vácuo, entre outros.
Condução a valer
É quando arregaçamos as mangas que as diferenças entre as duas versões mais se revelam. E, sim, o GTI 1.6 é de facto a versão mais furiosa, aquela que causa mais impressão no primeiro momento.
A caixa curta e o apetite por rotação deixam qualquer um entusiasmado, isto se conseguir pensar entre o tempo das passagens de caixa, que acontecem seguidas, a um ritmo frenético.
Dá muito gozo “espremer” o pequeno motor até ao redline, usando a caixa tão rápido quanto o braço permite, porque o selector aceita tudo. É uma caixa de velocidades soberba!
A sensação não é muito diferente no 1.9, só que não há a necessidade de reduzir tantas vezes porque quase sempre o motor “está lá” quando queremos, relevando uma faixa de binário útil mais ampla.
A curvar, o 1.6 é efectivamente muito divertido. Até o mais inexperiente dos condutores de GTIs, consegue pô-lo a andar de lado ao fim de minutos, com confiança. É um automóvel muito fácil de provocar a baixas velocidades e também fácil de corrigir.
A frente é incisiva, mas se por alguma razão entramos depressa demais na curva, dá para tirar partido da vivacidade da traseira para fechar a trajectória. A dificuldade, por vezes, está em dosear com precisão, sem exagerar...
Mas se a baixas velocidades tudo é mais ou menos controlável, a andar depressa o GTI 1.6 é por vezes arisco demais, o que retira alguma confiança. Quando o provocamos, é fácil corrigir, mas se a traseira se solta como resultado de um ajuste inesperado, o 1.6 pode "morder a mão do dono". E porque a maioria dos exemplares não tem direcção assistida, há sempre o risco de, eventualmente, não sermos tão rápidos a reagir quanto seria desejável...
O 1.9 não é radicalmente diferente no essencial do comportamento, mas é muito mais sóbrio: com mais superfície de contacto com o solo, as derivas da traseira são muito menos acentuadas. E seria de esperar que, após ultrapassado o ponto máximo de aderência fosse mais brusco a soltar-se, mas nem isso é verdade.
Além do mais, a melhor motricidade e a disponibilidade do motor, permitem sair das situações mais delicadas com o uso deliberado do acelerador, que põe a frente a puxar-nos de novo na direcção certa.
Os níveis de confiança incutidos pelo 1.9 são claramente superiores, sobretudo se - como acontece em grande parte dos exemplares - estiver equipado com direcção assistida, o que significa uma relação mais directa e mais rapidez de reacção do condutor.
A minha conclusão:
Aos olhos de muitos, o comportamento do 1.9 é considerado demasiado sóbrio, castrando o divertimento que se espera dum 205 GTI, mas na realidade, tudo é proporcional e a única coisa que o 1.9 faz é elevar a fasquia e permitir que se curve ainda mais depressa.
O que as modificações fizeram ao 1.9, foi actualizar a eficácia para níveis que só uns anos mais tarde se tornariam comuns. E quem achar que o 1.9 não é suficientemente “acrobático”, que experimente arriscar mais...
E se é verdade que o motor é um bocadinho menos electrizante, ao mesmo tempo é compensador o facto de se ter sempre muito mais reacção às ordens do pé direito quando estamos “ao ataque”.
Alegações finais
Resumindo os argumentos, a ideia que deixo é simples: o GTI 1.9 é objectivamente o melhor dos dois. Mas ser melhor, não é sinónimo de ter mais carisma. O 1.6 foi aquele com que mais de nós tivemos contacto e a sua estética mais “leve”, com as belíssimas jantes de 14 polegadas, exerce em nós um fascínio particular, talvez mais hoje do que na época.
No fundo, é a nostalgia de um tempo em que os “hot hatch” eram mais simples e delicados, e de um tempo em que um 205 GTI era o sonho que estava ali mesmo à mão de semear...
Assim, se estivesse na posição de comprar um, e o preço não fosse obstáculo, eu escolhia o 1.9, mas ficaria sempre a suspirar pelo 1.6 que já tive.
E vocês? Quero ler as vossas opiniões.




















