Os mais novos sabem o que é prazer de condução?
Jovem, não mudes já para o Instagram! Primeiro lê o que eu tenho para te dizer.
Fala-se muito do “generation shift”, e da razão pela qual os automóveis dos anos 70 para trás estão a perder valor e os mais modernos a subir vertiginosamente.
Os factores são vários e nós, os que temos menos cabelo, também temos culpa, por causa do comodismo e de às vezes acharmos que já não conseguimos andar sem ar condicionado.
Dito isto, acredito sinceramente que a razão para a queda da procura e dos valores dos automóveis não é só o envelhecimento do seu público habitual, mas também a falta de conhecimento do potencial novo público.
O que procuras, está aqui!
Som de admissão, som de escape, direcção “com feeling”, capacidade de quebrar os limites de aderência, caixa manual, sensações “viscerais”, pureza mecânica, envolvimento do condutor, tudo isto são expressões que hoje parecem slogans.
É aquilo que os condutores dizem que querem, e é aquilo que os construtores têm dificuldade de fornecer no actual contexto legal, ou que apenas conseguem por preços inalcançáveis ao comprador comum.
Solução? Vamos recuar no tempo. Encontrem um desportivo moderno com uma caixa de velocidades que tenha um tacto melhor ou mais mecânico do que um Austin Healey Sprite.
Encontrem uma direcção com mais feeling do que a dum Alfasud.
Descubram um som de escape melhor do que um Jaguar XK120 ou, vá lá, um mais modesto Triumph GT6.
E melhor som de admissão do que um simples Alfa Romeo Berlina ou, melhor ainda, um Lancia Fulvia?
E um chassis com o equilíbrio, precisão e delicadeza dum Datsun 1200?
Agora lanço a questão: quanto é preciso gastar para encontrar este tipo de qualidades num automóvel novo? E não é por acaso que a cultura dos “restomod” tem entusiasmado tantos coleccionadores milionários...
É cultura... rapaz!
Ninguém nasce ensinado e a maioria de nós, antes de gostar de clássicos, gosta é de automóveis do seu tempo. Para começar a gostar de coisas mais antigas é preciso começar a ir mais fundo no conhecimento e, especialmente, poder ligar esse conhecimento a experiências.
Não conheço jovens entusiastas que tenham experimentado um desportivo dos anos 60 ou 70 e tenham chegado ao fim a queixar-se da lentidão ou da ineficácia dos travões. O que fica é sobretudo um sorriso e uma curiosidade. E essa curiosidade normalmente leva a querer conhecer modelos ainda mais antigos.
A questão é, como se faz esta ponte? Se no seu meio um entusiasta não encontrar quem tenha um automóvel mais antigo, será difícil obter um primeiro contacto.
A dificuldade não está em encontrar jovens que gostem de clássicos. Porque são muitos. O foco de interesse está é noutras décadas. Assim, o importante é, primeiramente, criar eventos suficientemente abertos e informais, em que todos se sintam integrados, de forma a criar laços entre gerações e incentivar a convivência com modelos de outras épocas.
Numa segunda fase, criar eventos que combinem, por regulamento, automóveis antigos com gente nova, como tem sido feito noutros países, com sucesso, com os automóveis pré-guerra.
Promover a partilha
Há casos de clubes que promovem, em percursos restritos e fechados - como kartódromos ou zonas de estacionamento - eventos em que, em segurança, os proprietários possam trocar de automóvel por uns minutos para proporcionar a experiência de conduzir algo diferente ou simplesmente proporcionar co-drives. É preciso encontrar os participantes com o espírito certo, mas é, sem dúvida, uma ideia que abre horizontes a qualquer entusiasta.
Redescobrir o encanto de cada década automóvel
É certo que, todos nós, em cada geração, sonhamos com os modelos que estavam no auge quando tínhamos 15 ou 20 anos. Por isso, até há pouco tempo, a única geração de automóveis que já não encontrava potenciais compradores contemporâneos, era a dos pré-guerra. Agora o cenário está a mudar. Já não existem assim tantos entusiastas que tivessem 15 ou 20 anos nos anos 50 e 60 e que ainda estejam com energia para comprar clássicos e usá-los.
Este é, portanto, um momento sem precedentes no mercado dos clássicos, mas não tem de significar o fim da procura dos automóveis mais antigos. Pelo contrário. É um momento de criar um novo ciclo de entusiasmo pelos mesmos automóveis que já fizeram furor noutras gerações. Com os preços de muitos automóveis de sonho a tornarem-se repentinamente razoáveis, sso pode até vir a acontecer espontaneamente, mas o ideal era que clubes, organizadores de eventos e até organizadores de provas dessem um impulso a essa renovação.
Até porque com o a torneira dos automóveis de performance a fechar-se, não nos resta muito mais do que olhar para trás e “começar de novo”.












