Um pouco mais de 500.
“Migalhas também são pão”, “Grão a grão enche a galinha o papo”, "Só se sabe poupar o que custa a ganhar", "Do poupar vem o ter"; “Mais pode quem mais poupa”, “Poupa o teu vintém, que serás um dia alguém”. Todas estas frases soam a criação antiga e fazem lembrar pessoas mais velhas, mas a mensagem central é inegavelmente intemporal.
O mundo, e a economia em particular, funcionam de forma cíclica e a razão essencial para isso é, fundamentalmente, um misto de optimismo e memória curta.
O período pós-guerra foi um severo professor de economia para mais do que uma geração. Os que então eram adultos e seus filhos, não tinham hipótese de repudiar a expressão “austeridade”, porque ela não era uma opção: era a única realidade possível. Passou-se então pela fase em que ter um veículo motorizado era quase uma excentricidade, seguida de uma época em que um ciclomotor era a forma perfeita de alargar os horizontes familiares e, só depois, chegou a época de sonhar com os pequenos ou muito pequenos automóveis. Era o fim da ressaca da guerra. Iniciava-se na Europa um período de prosperidade económica e de liberdade intelectual e social (mesmo nos países que a reprimiam).
A guerra tinha criado um maior nivelamento entre camadas sociais e isso afectou os costumes e as modas. Naquela época, o estilo de vida minimalista e poupado, passou a ser considerado elegante. Fazia-se roupas em casa, convivia-se em piqueniques e as scooters eram um meio de transporte glamoroso a que até as estrelas de cinema se rendiam.
Foi neste contexto quase irrepetível que nasceu o Fiat 500. Era um automóvel que nascia para responder às necessidades populares e cujas formas eram ditadas pela escassez de recursos, mas não tardou a que se tornasse um ícone. Passou a figurar em programas de televisão, filmes e em capas de disco. Ultrapassou as fronteiras da cultura automóvel para se tornar símbolo de uma geraçãom um privilégio ao alcance de muito poucos modelos.
A Fiat 500 Giardiniera foi lançada em 1960. O aumento significativo do espaço interior aumentava providencialmente a versatilidade do 500. Com espaço para bagagem e uma terceira porta, o Fiat passava a ser equacionável para uma pequena família com duas crianças. Havia ainda aqueles que, por terem um estilo de vida mais activo, tinham a necessidade de espaço para as suas actividades de lazer e assim, podiam tê-lo sem prescindir do automóvel da moda.
Mais tarde a Fiat viria a disponibilizar uma versão de mercadorias, com painéis laterais de chapa, mas sem grande expressão comercial, o que é compreensível dado o espaço de carga reduzido e a parca potência. Com 17,5cv e um binário de 30Nm, nenhuma tarefa urgente lhe poderia ser confiada.
Ao apreciar a Giardiniera em detalhe, percebe-se que nasceu para funções mais nobres do que transportar mercearias. O extenso tecto de lona é uma das evidências de que a utilização em lazer foi a primeira preocupação. Além disso, os pormenores mostram uma preocupação com a estética que não se coaduna com um veículo de trabalho.
Abrindo a porta traseira, percebe-se que apesar do formato break, só rebatendo os bancos se consegue um espaço de carga razoável e com uma superfície bastante plana, graças à criatividade dos engenheiros de Turim. Não é por acaso que os menos entendidos demoram a perceber que o motor está na traseira. A razão pela qual o bi-cilíndrico se encontra tão bem escondido, prende-se com o facto de estar montado em posição horizontal, ao contrário do que acontece nos outros 500.
O preço a pagar é a maior dificuldade de acesso aos vários elementos mecânicos, o que dificultava qualquer intervenção que tivesse de ser feita na estrada. No entanto, como boa parte dos condutores das Giardiniera eram senhoras, essa era uma dificuldade irrelevante. Já a habitabilidade traseira, essa sim, era percebida por condutores de todos os géneros e idades. Assim, através das carismáticas portas “malcriadas”, podiam mesmo entrar quatro adultos.
Conduzir a Giardinera, hoje.
O ambiente de bordo de qualquer 500 da primeira série é especial. Na Giardiniera, é ainda um pouco mais, já que o habitáculo é mais luminoso devido à grande superfície de vidro e – quando aberto – ao enorme tecto de lona. O bonito e minimalista “painel de instrumentos” - que é composto apenas pelo velocímetro e algumas luzes avisadoras – combina em tom com o volante de baquelite branca.
O acto de entrar em qualquer automóvel cujas portas abrem ao contrário, exige alguma preparação para ser feito com destreza e naturalidade, mas quando bem executado, é “um charme”. A posição de condução é, ao contrário do que esperava, bem aceitável. Os pedais são desviados para o centro, mas o volante está na altura e posição certas. Puxando o starter, que se encontra junto ao travão de mão, o motor de arranque emite um som horrível, próprio de algo que se vai desintegrar, mas quem já tenha conduzido um 500, sabe que está tudo bem… é mesmo assim.
Lá atrás, os dois cilindros ficam a matraquear calmamente até se decidir acelerar. Engrena-se primeira na delicada alavanca. O accionamento do selector não podia ter um toque mais mecânico. Isso, a somar ao curso bastante curto da alavanca, proporciona uma imensa satisfação em cada passagem de caixa.
Usando com a delicadeza possível os pequenos pedais, todos eles de curso curto, arranca-se suavemente. Aliás, a potência é tão escassa que não há como não ser suave, e a direcção é tão incrivelmente leve, que quase parece que o volante está desligado das rodas. A Giardiniera pode literalmente ser manobrada com dois dedos.
As dimensões são tão reduzidas que a sensação é quase a de que podemos circular como uma moto, aproveitando todos os espaços entre carros. O único senão é que quando chegarmos ao espaço que vimos, ele pode já lá não estar, porque demoramos demais… a Fiat é incrivelmente lenta, ao ponto de fazer rir o condutor, mas isso faz parte do charme dum modelo que foi pensado para ser usado nos centros históricos de cidades antigas, com Roma, Milão ou Porto e Lisboa.
Os travões são adequados às capacidades do motor, ou seja, são muito fraquinhos. Tudo é bastante proporcional e incrivelmente divertido. Talvez seja mais seguro bungee jumping do que guiar a Giardiniera numa auto-estrada movimentada, mas numa utilização em centro de cidade, a carrinha Fiat é uma experiência inesquecível. E se não fosse pelo prazer de condução, seria pelas reacções simpáticas e carinhosas que provoca em quem passa.
Num dia de sol, a Giardiniera torna-se numa verdadeira atracção turística!
Este exemplar
As Giardiniera nunca fizeram parte da oferta oficial da Fiat em Portugal e poucas foram importadas.
Esta unidade apresentada pela Auto d'Época é de 1976, foi importada de Itália recentemente e submetida a um restauro profundo, a nível de chapa, pintura e mecanica, devidamente, fotografado.
Foi registada em Portugal com matrícula da época e aguarda a Certificação do Clube Português de Automóveis Antigos.
Fiat 500 Giardiniera
Anos de produção: 1960 a 1968
499,5cc
Diâmetro vs Curso: 67,4 x 70
17,5cv DIN às 4600rpm
35Nm às 3500rpm
Carburador simples
2 cilindros em linha posição longitudinal traseira; árvore de cames à cabeça
Monobloco em aço de três portas e quatro lugares
3181mm de comprimento
1950mm entre eixos
555kg
Suspensão dianteira independente com triângulos inferiores, mola transversal e amortecedores telescópicos.
Suspensão traseira independente, com braços de tirante, amortecedores telescópicos e molas helicoidais
Travões de tambor
Caixa manual de quatro velocidades
96km/h de V. Máxima
















