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"Continuation": será correcto fabricar clássicos novos?

São vários os fabricantes a rentabilizar a escassez e o desejo gerado pelos clássicos, fabricando unidades novas de modelos com décadas. Será correcto?
Hugo Reis
26 de mai. de 2026

Imagens: Gooding Christie's, RM Sotheby's, Jaguar, Bentley

Diz muito da importância e atracção dos automóveis antigos, o facto de boa parte dos grandes construtores se dedicar a produzir de novo, modelos de épocas áureas como os anos 50 e 60 e até mesmo pré-guerra.

É possível comparar esta tendência àquilo que Carrol Shelby fez com os seus próprios modelos, retomando a sua produção no final dos anos 80, com um número de chassis sequencial aos modelos originais. Esta foi, no fundo, uma forma de dar resposta a uma oferta superior à procura e de permitir adquirir um Cobra semelhante ao original por um valor inferior e com “zero” quilómetros.

Contudo, o fenómeno mais recente dos “continuation series” é algo bastante diferente, na medida em que os valores de venda são muito elevados.

Um caso recente é o do mítico Jaguar C-type, o modelo com que a marca conquistou Le Mans e muitas outras provas. O valor médio de um dos 43 exemplares construídos entre 1951 e 1953, é de perto de três milhões de euros, podendo ir até próximo dos seis, dependendo do historial do chassis em causa.

Por comparação, os cerca de 1,5 milhões que é preciso pagar por um dos oito novos C-type que serão produzidos em 2021, parecem uma proposta irrecusável. Há, no entanto, que ter em conta que são exemplares sem qualquer história e que, na maioria dos casos, assim permanecerão.

O que a experiência diz é que estes exemplares de “continuação”, mantém o seu valor de mercado, começando progressivamente a subir ao fim de alguns anos.

Mas será que estas séries são despropositadas e apenas uma forma de fazer dinheiro? A maior parte dos especialistas considera que a criação de novas séries muito limitadas não afecta negativamente o valor dos antigos e, pelo contrário, atrai a atenção do público para o modelo.

A outra razão que torna aceitável estas novas séries é o facto de quase todas elas terem uma justificação histórica. Serve de exemplo o caso famoso do Jaguar XKSS, modelo do qual a marca planeou construir 25 exemplares em 1957. Contudo, após a construção de 16 exemplares, deu-se o célebre incêndio da fábrica de Coventry que levou à destruição dos chassis D-type que serviriam de base aos restantes nove. Assim, em 2016 a Jaguar produziu apenas nove exemplares “continuation”, usando precisamente os números de chassis não atribuídos. Uma forma de legitimar estes modelos e limitar a produção a números muito reduzidos.

A lista de modelos a ser alvo destes “renascimentos” é já extensa, incluindo o Aston Martin DB4 GT Zagato, o Bentley “Blower”, os Jaguar XKSS, E-Type Lighweight, D-type e C-Type, os Porsche 356 Zagato “Sanction Lost” entre outros.

Para quem tem um enorme desejo de ter um modelo ultra-raro e um orçamento a condizer, os "Continuation" podem até ser irresistíveis, se forem adquiridos para um uso efectivo, até intenso. Enquanto objectos de colecção, honestamente, parece-me difícil entender o apelo. Um automóvel antigo sem história ou sem marcas do tempo, tem sempre apenas uma parte do fascínio. 

Imagine gastar cerca de 1,5 milhões num XKSS novo, para ver uma cara de desilusão quando disser a alguém que o seu não é propriamente genuíno... Especialmente se tivermos em conta que empresas como a Linx ou a Jaye Engineering, já reproduziam fielmente os modelos mais emblemáticos da marca, por uma fracção desse valor.

Quando é que realmente fazem sentido? Quando o objectivo é usá-los como não seria razoável usar uma peça com uma história demasiado preciosa, ou seja, em eventos como os de Goodwood, em que é possível ver os mais emblemáticos automóveis de sempre a disputar travagens como se se tratasse da luta pelo título dum campeonato do mundo. 

Aí, todos ficam a ganhar: os pilotos que têm o prazer de conduzir a fundo e com menos preocupação os ícones com que sempre sonharam e o público, que é levado na mais emocionante viagem no tempo...