Westfield tem novo dono. Começa um nova vida?
Foi com alguma consternação que a comunidade de entusiastas recebeu a notícia em 2022. Não era só mais uma marca, mas antes um daqueles tomba-gigantes direccionados exclusivamente aos condutores mais radicais.
Quatro anos depois, quando uma nova insolvência parecia selar definitivamente o seu destino, a Westfield voltou a escapar ao desaparecimento. A aquisição pela empresa neerlandesa Driving-Fun.com não garante o sucesso futuro da marca, mas oferece-lhe uma segunda oportunidade.
Parece uma combinação promissora a desta empresa associada aos track-days a um dos mais históricos construtores de kit cars britânicos.
Uma ideia nascida numa garagem
A história começa no início dos anos 80, quando Chris Smith, engenheiro mecânico e entusiasta do automobilismo, decidiu construir uma réplica do Lotus Eleven, um dos mais belos automóveis de competição produzidos pela empresa de Colin Chapman durante os anos 50.
O projecto rapidamente evoluiu para algo mais ambicioso. Em vez de produzir apenas alguns exemplares para clientes específicos, Smith percebeu que existia um mercado crescente para automóveis desportivos simples, leves e acessíveis que os proprietários poderiam montar em casa.
A Grã-Bretanha vivia então uma verdadeira era dourada dos kit cars. A legislação relativamente permissiva consentia a pequenas empresas vender automóveis sob a forma de kits, reduzindo custos e simplificando os processos de homologação. Para muitos entusiastas, era a oportunidade de possuir um desportivo puro, sem os custos associados aos fabricantes tradicionais..
A batalha com a Caterham
Tal como muitos outros construtores da época, a Westfield encontrou inspiração no Lotus Seven, o lendário roadster concebido por Colin Chapman e cuja produção tinha passado para as mãos da Caterham após o abandono do modelo pela Lotus.
Os primeiros Westfield eram visualmente muito próximos do Seven, ou mesmo demasiado próximos.
A Caterham considerou que a concorrente tinha ultrapassado os limites da inspiração e avançou para tribunal. A disputa legal tornou-se um dos episódios mais marcantes da história da marca.
A derrota obrigou a Westfield a alterar profundamente vários elementos da carroçaria e da estrutura dos seus automóveis. O nariz, os guarda-lamas, a traseira e diversos pormenores foram redesenhados para criar uma identidade própria, tendo como consequência uma aparência menos sedutora.
Paradoxalmente, aquilo que parecia ser uma ameaça à sobrevivência da empresa acabou por fortalecer a sua personalidade. A partir desse momento, os Westfield deixaram de ser vistos como simples alternativas ao Caterham e passaram a afirmar-se como um produto distinto, graças a motorizações mais radicais.
A alternativa mais radical
Durante as décadas de 1980 e 1990, a Westfield construiu uma reputação invejável entre os entusiastas da condução. A filosofia era simples: peso reduzido, mecânica acessível e prestações elevadas. Enquanto muitos fabricantes procuravam tornar os automóveis mais sofisticados, os Westfield ofereciam uma experiência de condução crua, directa e sem filtros.
Ao longo dos anos surgiram versões equipadas com motores Ford, Vauxhall, Rover, Mazda e até propulsores provenientes de motociclos.
Um dos modelos mais emblemáticos foi o SEiGHT, lançado com o famoso motor Rover V8. Graças a uma combinação de potência elevada e peso extremamente reduzido, oferecia acelerações comparáveis às de superdesportivos muito mais caros.
Mas foi talvez o Megabusa que melhor representou o espírito irreverente da marca. Equipado com o motor da Suzuki Hayabusa, uma das motos mais rápidas do mundo, o pequeno roadster proporcionava intensa, com rotações elevadíssimas e uma relação peso-potência impressionante.
No início dos anos 2000, a crescente popularidade da Radical levou a Westfield a explorar territórios mais próximos da competição. O resultado foi o XTR, um automóvel concebido essencialmente para utilização em pista, com carroçaria fechada e aerodinâmica inspirada nos protótipos de corrida.
A empresa chegou mesmo a desenvolver projectos ainda mais ambiciosos, como o FW400, um desportivo de motor central que pretendia elevar a marca para um patamar superior. Apesar do entusiasmo inicial, os custos de desenvolvimento limitaram o impacto comercial do projecto.
Mudança de mãos e novos desafios
Em 2006, Chris Smith vendeu a empresa a Frank Turner, antigo gestor da Rolls-Royce. A mudança de proprietários coincidiu com um período de transformação profunda na indústria automóvel. Os regulamentos tornavam-se mais exigentes, os custos de homologação aumentavam e o mercado dos kit cars começava lentamente a encolher.
Ainda assim, a Westfield procurou reinventar-se, investindo em áreas aparentemente afastadas do seu negócio tradicional. Surgiram projectos relacionados com veículos eléctricos, sistemas de condução autónoma e novas soluções de mobilidade urbana.
A estratégia pretendia abrir novas fontes de receita e reduzir a dependência de um nicho de mercado cada vez mais pequeno. No entanto, muitas dessas iniciativas consumiram recursos significativos sem gerar os resultados esperados.
Em 2019, a aquisição da Chesil Motor Company, conhecida pelas suas réplicas do Porsche 356, foi encarada como mais um passo na diversificação do grupo mas, na prática, acabou por representar mais uma despesa inconveniente.
A tempestade perfeita
Quando a pandemia de Covid-19 atingiu a Europa em 2020, a situação financeira da Westfield já era delicada. O encerramento temporário da actividade económica, as dificuldades nas cadeias de abastecimento e a escassez de componentes agravaram problemas que se vinham acumulando há vários anos.
A estes factores juntaram-se os efeitos do Brexit, que complicaram exportações, aumentaram custos administrativos e criaram novos obstáculos logísticos para pequenos fabricantes britânicos.
Ao mesmo tempo, a Caterham foi elevando a fasquia e diversificando a sua gama.
Em Junho de 2022, a empresa entrou em administração judicial e, embora a produção tenha continuado durante algum tempo sob uma estrutura reorganizada, a realidade era evidente: a Westfield lutava pela sobrevivência.
A morte que não era certa
Nos anos seguintes, as dúvidas mantiveram-se. A marca continuou a operar de forma limitada, mas sem a capacidade financeira necessária para regressar aos melhores tempos. Quando uma nova insolvência foi anunciada, muitos consideraram inevitável o desaparecimento definitivo da empresa.
Foi então que surgiu um comprador improvável: a Driving-Fun.com, empresa neerlandesa especializada na organização de track days e eventos de condução, decidiu adquirir os activos da Westfield.
À primeira vista, a operação poderia parecer surpreendente. Contudo, existe uma lógica clara por detrás da decisão, pois a Driving-Fun.com vive precisamente do tipo de experiência que os automóveis da Westfield oferecem: condução pura, envolvimento mecânico e diversão sem filtros electrónicos.
Além disso, a empresa é proprietária do circuito de Meppen, na Alemanha, o que permite integrar a marca num ecossistema orientado para eventos, formação de pilotos e experiências em pista.
Vida nova!
Os novos proprietários afirmaram desde o início que a intenção não passa apenas por preservar o legado da Westfield. O objectivo é voltar a produzir automóveis.
Embora ainda não tenham sido revelados muitos detalhes sobre futuros modelos, os responsáveis garantem que a produção deverá regressar gradualmente, acompanhada pelo reforço do apoio aos milhares de proprietários existentes.
A comunidade Westfield continua a ser uma das mais activas do sector, com clubes espalhados por toda a Europa e uma forte presença em eventos de competição amadora e track days.Essa base de clientes poderá revelar-se decisiva para a recuperação da marca.
Num momento em que grande parte da indústria automóvel se vê presa a modelos cada vez mais pesados, complexos e caros, os automóveis leves, analógicos e focados exclusivamente no prazer de condução ganharam um novo estatuto junto dos entusiastas e poderão mesmo vir a ser alvo duma maior procura.
Uma sobrevivente de outra era
A história da Westfield é, em muitos aspectos, a história da própria indústria automóvel britânica independente.
Ao longo de mais de quatro décadas, a marca sobreviveu a crises económicas, disputas legais, mudanças regulamentares e transformações tecnológicas profundas.
Muitas das empresas que partilharam o mesmo caminho desapareceram pelo no entretanto e outras foram absorvidas por grupos maiores. Poucas conseguiram manter a identidade.
A marca fundada por Chris Smith escapou à morte por duas vezes. Se conseguirá transformar essa segunda oportunidade num verdadeiro renascimento, só o tempo o dirá. Mas, para já, a Westfield continua na estrada.


















