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Pebble Beach é "uma seca". Convençam-me do oposto.

A Car Week nasceu em torno do Concurso, que é agora o evento mais aborrecido da semana. Estarei errado?
Hugo Reis
19 de ago. de 2026

Fotos: Pebble Beach Concours, Tim Scott e Wikipedia (Creative Commons)

Não me interpretem mal. Qualquer evento que dura 75 anos merece ser venerado, ou pelo menos respeitado. Mas respeitar algo é também querer o seu melhor. Na minha opinião, a edição número 75 foi tudo menos marcante, e serviu para sublinhar o que parece estar errado com aquele que é supostamente o mais importante Concurso de Elegância do mundo. 

O Concurso de Pebble Beach nasceu em 1950, como um evento social e uma animação paralela integrada no programa da Pebble Beach Road Race. Esta prova, patrocinada pelo mítico SCCA – Sports Car Club of America, era o ponto alto do fim-de-semana e era disputada num circuito urbano desenhado na região. 

O concurso reuniu apenas 30 viaturas na sua primeira edição, ocupando somente um pequeno campo de treino do Pebble Beach Club.

Inicialmente, o conceito de Concurso de Elegância não tinha qualquer vínculo ao automóvel antigo, antes pelo contrário. Durante as primeiras edições os vencedores eram modelos saídos no próprio ano.

Foi só na edição de 1955, que, pela primeira vez, o automóvel vencedor foi um clássico. Por clássico entenda-se um automóvel que, à data, contava 24 anos. Era um belo Pierce-Arrow 41 LeBaron Town Car Cabriolet, submetido a concurso por um famoso proprietário de seu nome... Phil Hill. 

O prodigioso piloto americano era, além disso, um grande entusiasta dos automóveis antigos e uma das primeiras personalidades globalmente reconhecidas a dedicar-se ao restauro e colecção de automóveis antigos.

Nesse ano, Hill venceria pela terceira vez a Pebble Beach Road Race, desta feita ao volante dum Ferrari 750 Monza e, de seguida, arrecadava o Best of Show no concurso, com o qual manteve um forte vínculo toda a vida (voltou a vencer o Best of Show em 1977, com um Packard Eight), que agora se estende ao filho Derek, que o apresentador principal durante oito anos.

Do restauro ao hiper-restauro
Pebble Beach passou rapidamente a marcar o tom dos concursos de elegância automóvel, tornando-se a referência e a meta dos grandes restauradores internacionais. O standard dos restauros evoluiu, as técnicas refinaram-se, mas cresceu nos coleccionadores uma certa obsessão pela perfeição. 

Esta obsessão tomou proporções absurdas, ao ponto de alguns exemplares fantásticos e bem conservados, serem repetidamente restaurados à exaustão, até quase nada restar do exemplar original. E porque o acesso à informação nem sempre era perfeito, muitos erros irreversíveis foram cometidos na busca da condição “melhor que novo”. 

Claro está que automóveis nesta condição não podiam ser usados, ou pelo menos foi essa a filosofia que se foi interiorizando. Os automóveis chegavam num atrelado ou num transporte especial, eram descarregados, exibidos e, se não fossem distinguidos, não precisavam sequer de passar no palanque. Passavam de automóveis a objectos de arte inertes. 

Ao longo dos anos a organização foi reagindo às críticas e inventou formas de contrariar alguns desses maus hábitos, nomeadamente o “Tour d’Elegance”, um passeio de cerca de 112km, obrigatório para todos os 150 veículos inscritos no Concurso. Esta é uma forma de garantir que, além de apresentáveis, os exemplares têm de estar funcionais e fiáveis.

Há vida depois da guerra?
A vitória de Phil Hill em 1955 teve um efeito pernicioso: desde então, os automóveis pós-guerra foram relegados para um plano de quase insignificância. Estranhamente, um Maserati Mistral de 1964 venceu a edição de 1968 (gostaria de saber como é que o júri justificou a decisão) e, depois disso, só em 2014 é que as honras de Best of Show foram para um automóvel pós-guerra: o magnífico Ferrari 375 MM Scaglietti ex-Rossellini. Foi há 12 anos...

Desde então o tempo não parou, as gerações de coleccionadores foram mudando, mas o Júri de Pebble Beach parece não ter reparado e, apesar dos modelos pós-guerra aparecerem cada vez mais na fileira dos quatro finalistas, a esperança de virem a vencer é mínima...

Recorde-se que o fim da Segunda Guerra já foi há 80 anos, para o caso de alguém não ter reparado...

Finalmente, a patine...
Em 2023 o Júri de Pebble Beach quis dar um novo sinal de vitalidade, mostrando sensibilidade às tendências internacionais do mundo dos automóveis de colecção. 

Assim, pela primeira vez, atribuiu o prémio Best of Show a um automóvel não restaurado: o Bugatti T59 Sports que pertenceu ao Rei Leopoldo III da Bélgica e que agora é propriedade do “coleccionador pop star” Fritz Burkard, herdeiro do império Sika e que, coincidência ou não, chegou este ano de novo aos quatro finalistas.

O exemplar exibe imensas marcas do tempo, mas mantém-se muito original relativamente ao período final da carreira desportiva, tendo sido preservado de forma obsessiva, com recurso a métodos que permitem suster o estado em que se encontra pelo máximo de tempo possível. 

Tudo como dantes
Nas duas mais recentes edições, o concurso voltou ao seu habitual, premiando no ano passado um invulgar Hispano-Suiza H6C “Tulipwood Torpedo” com carroçaria em madeira e, este ano, o vencedor foi um Duesenberg SSJ que pertenceu a Clark Gable. 

Quando vi os quatro finalistas alinhados, adivinhei que o Duesenberg venceria. Não só porque esta é a segunda marca com mais vitórias no concurso (Mercedes-Benz e Bugatti estão empatadas em primeiro, com dez vitórias, enquanto a Duesenberg soma oito), mas porque este exemplar encaixa no estilo de automóvel habitual.

Os tempos mudam, mas apesar de uma ou outra sugestão de modernização, Pebble Beach parece ter cristalizado. Não apenas nas escolhas e critérios, mas também no que é a sua forma visível.

Um espectáculo entediante
A transmissão em directo da cerimónia final do Concurso, teve a duração de quatro horas e meia. Três horas e meia foi quanto durou a entrega de prémios. No total foram entregues 52 prémios, incluindo muitos automóveis verdadeiramente extraordinários, mesmo no contexto de Pebble Beach. 

Justin Bell foi, como sempre, o maior animador, com entrevistas no relvado e a apoiar a transmissão televisiva. 
A “Mestre de Cerimónias” foi Amanda Stretton, que não conseguiu sair do tom monocórdico que a caracteriza. 

O espectáculo foi previsivelmente morno, mas pior do que isso, foi marcado por momentos de amadorismo, como o de automóveis que subiam ao palanque sem serem anunciados pois não constavam da lista de premiados dos apresentadores, já para não falar no momento hilariante que é sempre a actuação da orquestra jazz que parece ter sido treinada para desafinar, gerando as mais divertidas  reacções na caixa de comentários da transmissão online no YouTube.

Os rostos do Concours
A figura principal deste evento é Sandra Button, de 69 anos, Chairman do Concurso desde 2002 e que recentemente anunciou a sua saída do cargo já em... 2029.

O Presidente do Júri é Chris Bock. Tem 81 anos e é júri do Concurso desde 1973(!), tendo-se tornado Presidente em 2013.

Aquele que será o sucessor de Sandra Button é Vince Finaldi, um famoso advogado de 51 anos que, no entretanto abandonou o direito para fundar uma empresa (Finaldi Inc.) dedicada ao restauro e comércio de automóveis clássicos de topo, mesmo na península de Monterey...

Tirem as vossas conclusões.

O elo mais fraco
O Pebble Beach Concours d’Elegance, parece ter cristalizado no tempo, ou ter ficado refém de um determinado núcleo fechado de pessoas influentes. Estou certo de que, apesar de tudo, a futura liderança de Finaldi trará uma renovação do evento, senão na forma, pelo menos no foco nas gerações de automóveis pós-guerra. Até porque o seu negócio pessoal tem a ganhar com isso...

Contudo, a acontecer, essa mudança peca por tardia. A previsibilidade e o formato imutável do concurso, contrastam com tudo o que acontece à sua volta na Monterey Car Week. O Exotics on Broadway, o Little Car Show, o Concours d’Lemmons, a Werks Reunion, o Legends of the Autobahn, o Concorso Italiano e sobretudo o “The Quail”, são todos eventos radicalmente diferentes, mas que têm em comum um ponto forte: são vibrantes, variados, reflectem a actualidade e as tendências, atraem jovens e têm uma projecção extraordinária na imprensa, nos influenciadores e nos meios de comunicação em geral. 

O entusiasmo em torno da Car Week cresce exponencialmente, em pleno contraste com a relevância de Pebble Beach. 

Poder-se-ia dizer que um Concurso de Elegância é, por natureza, um evento mais conservador e menos extrovertido, mas veja-se o caso do segundo Concurso mais famoso do mundo, o de Villa d’Este, a sua relevância no mundo automóvel e o seu peso mediático dentro da semana automóvel do Lago Como.

Fé no futuro
Ao longo dos seus 75 anos de existência, Pebble Beach fortaleceu a vertente de beneficência, tendo registado em 2026 um acumulado que ultrapassou os 50 milhões de dólares.

Por isso, mas também pelo contributo inestimável que deu à cultura automóvel e à arte do restauro e conservação, este é um evento que merece o melhor dos futuros. No entanto, para que tal aconteça, é melhor a organização vir à janela para perceber que mundo mudou e que se calhar é hora de sacudir algumas teias e abanar alguns esqueletos, para que volte a ser o melhor evento de automóveis antigos e não um evento de pessoas antigas...

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