MG K3 "de fábrica", em Portugal, no autoClássico.
Fotos: Rui Reis e RM Sotheby's
O Salão autoClássico foi palco de um momento particularmente relevante para os entusiastas dos automóveis históricos e dos pré-guerra em particular. Pode ter passado despercebido a muitos dos visitantes o enorme significado histórico do exemplar apresentado no stand da Robalo & Macedo, com o apoio da MG.
Com apenas 33 unidades produzidas, o K3 Mangnette é já um modelo extremamente raro, mas este exemplar é um de apenas três preparados e oficialmente inscritos pela própria MG nas mais importantes provas europeias, entre as quais as Mille Miglia, o Tourist Trophy ou as 500 Milhas de Brooklands.
Nascido para vencer
Apresentado em 1933, o MG K3 Magnette foi concebido para competir nas categorias reservadas aos automóveis de menor cilindrada. À semelhança de outros MG como os mais conhecidos F e J, beneficiava dum chassis leve e curto, com uma carroçaria “roadster” minimalista que lhe permitia um peso baixo e uma grande agilidade. A diferença estava na utilização dum motor de seis cilindros em linha, de 1087cc, oriundo do Wolseley Hornet, preparado e equipado com compressor volumétrico.
Na configuração de competição KC, a potência podia atingir cerca de 120 cv, um valor notável para um automóvel desta cilindrada nos anos 30. Numa época em que os sincronizadores ainda eram um uma novidade, a caixa de velocidades de pré-selecção simplificava a condução e ajudava a tornar o K3 capaz de enfrentar adversários bem mais potentes.
Um currículo invejável
Com o número de chassis K3020, foi um dos três automóveis preparados sob a orientação do Capitão George Eyston para a temporada de 1934 e o primeiro a receber a carroçaria de dois lugares conhecida como Pointed Tail, caracterizada pela sua traseira afilada.
A estreia competitiva do K3020 aconteceu a 28 de Abril de 1934, no International Trophy, disputado em Brooklands, no Reino Unido. Conduzido por Clifton Penn-Hughes, terminou em 13.º lugar da classificação geral e quinto na sua classe.
Poucas semanas depois, no Mannin Beg, na Ilha de Man, Charles Dodson levou o MG ao segundo lugar da classificação geral. A temporada prosseguiu com participações em provas de referência, incluindo o British Empire Trophy e a corrida de 500 Milhas de Brooklands.
Foi nesta última, em Setembro de 1934, que o automóvel alcançou um dos resultados mais expressivos da carreira inicial: quarto lugar à geral, com Tommy Wisdom e Bill Everitt ao volante. Ainda nesse ano, participou no Masaryk Junior Grand Prix, em Brno, na então Checoslováquia, conduzido por Richard Seaman, futuro piloto da Mercedes-Benz na época de ouro das Flechas de Prata, terminando na quinta posição.
Em 1935, o K3020 voltou a marcar presença na Mille Miglia. Inscrito pela equipa de George Eyston, começou a prova de forma promissora, chegando a liderar a classe de 110cc, mas foi obrigado a desistir devido a problemas mecânicos.
O seu percurso desportivo não terminou aí. Em 1936, passou para as mãos do piloto britânico L. R. Briggs, que o utilizou em várias competições, alcançando, entre outros resultados, o segundo lugar absoluto no County Down Trophy.
Muitas vidas
Depois dos primeiros anos de competição, o automóvel conheceu várias mudanças de proprietário e chegou a receber uma carroçaria diferente. Em 1958, foi exportado para os Estados Unidos, onde permaneceu durante décadas.
Em 1968, entrou na colecção de Gary Schonwald, que promoveu um restauro completo e a recuperação da configuração de carroçaria Pointed Tail. Mais tarde, passou para a colecção de E. Dean Butler, entusiasta que voltou a utilizá-lo intensamente em provas históricas, incluindo o Le Mans Classic, em 2002.
Já no século XXI, o MG participou em eventos como a Mille Miglia Storica, o Alpine Trial e o Shamrock Rally. A manutenção cuidada e a documentação histórica que o acompanha, incluindo documentação de fábrica e a carta de controlo original das Mille Miglia, reforçam a importância deste exemplar.
Uma aquisição com um sonho associado
A apresentação no autoClássico permitiu ao público português conhecer de perto um automóvel cuja importância ultrapassa largamente a sua raridade. O MG K3 Magnette K3020 representa uma fase fundamental da história da marca britânica.
Pedro Villas-Boas, o seu novo proprietário, é um dos grandes aventureiros do automobilismo nacional. É uma das figuras pioneiras do todo-o-terreno em Portugal, tanto como piloto como organizador de provas. Foi um dos membros da primeira comitiva portuguesa a participar no Dakar (prova em que alinhou três vezes em UMM), participou também duas vezes no mítico e exigente Camel Trophy, prova que concluiu em segundo lugar (com os primeiros pontos do primeiro classificado), estando ainda ligado à criação do Clube Aventura e ao nascimento da Baja de Portalegre.
Depois de ter abrandado a sua actividade no off-road (que ainda pratica de forma assídua e intensa, aos 85 anos, numa perspectiva de lazer), Pedro Villas-Boas tem dedicado muito do seu tempo livre aos automóveis clássicos, não apenas como coleccionador, mas como participante em inúmeras provas nacionais e internacionais, nomeadamente as de longa distância.
A compra do MG K3 é não só um sonho concretizado, mas é também um passaporte para uma aventura há muito desejada: a participação nas míticas Mille Miglia históricas. Esta prova de rara beleza, reúne todos os anos mais de 400 automóveis, somente de modelos fabricados entre 1927 e 1957, que tenham alinhado na prova original, disputada nesse período. No entanto, os pedidos excedem de tal forma as vagas, que se torna muito difícil garantir a participação.
Contudo, os exemplares que tenham efectivamente participado na prova, na época, têm acesso directo, o que significa que este K3 “works”, deverá poder repetir a partida que fez em 1935, desta feita com uma dupla portuguesa aos comandos. Estamos a torcer pelo Pedro!














